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Trocando a insanidade econômica pela economia solidária • OEconomista

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Trocando a insanidade econômica pela economia solidária

Autor: O Economista – 26 de junho de 2009

Por Marcus Eduardo de Oliveira É fato inconteste que atráves do comportamento econômico é possível entender a situação do mundo. E, ao entender a atual situação econômica e social que se desenrola nesse século XXI, com 1 bilhão de pessoas passando fome, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), torna-se inadmissível continuar aceitando a existência de um modelo econômico que produz riqueza gerando pobreza; que eleva a produção agredindo o meio-ambiente; que fabrica bens à base da subordinação de muitos mediante a precarização cada vez mais intensa das relações de trabalho; que faz uso de trabalho escravo e infantil; que desumaniza as relações econômicas em troca do lucro rápido.

Isso é simplesmente uma insanidade econômica que produz para o gosto de alguns apenas extravagâncias e, em nada, absolutamente nada, contribui para o bem-estar coletivo, distanciando-se do objetivo principal dos modelos econômicos: o desenvolvimento econômico.

Exemplos dessa insanidade econômica não faltam e ganham visibilidade cada vez mais. Enquanto de um lado poucos ganham muito; do outro, muitos sofrem. Essa insanidade econômica não tem limites e se reproduz cada vez mais usando trabalho infantil e escravo. Lojas de tapetes na Índia, no Nepal e no Paquistão usam quase um milhão de crianças na linha de produção. Vários são os casos em que muitas dessas crianças atingiram a cegueira devido ao longo tempo em que passaram costurando.

As casas de prostituição tailandesas, indianas e brimanesas usam meninas de 10 e 11 anos de idade, numa submissão sexual sem precedentes. De igual forma, em várias cidades do Nordeste brasileiro, “programas sexuais” com adolescentes são “vendidos” pela internet a estrangeiros em visitas às cidades.

No Oriente Médio, nas famosas corridas de camelo, os jóqueis são meninos entre 12 e 15 anos “comprados” por comerciantes e tratados com brutalidade, da mesma forma como também são tratados os camelos. No Camboja, a indústria de tijolos e telhas faz uso de meninos descalços e sem nenhuma proteção para o transporte desse produto. Razão pela qual muitas crianças aparecem com braços, pernas e dedos cortados pelo manuseios dos pesados tijolos.

A Nike, fabricante de calçados esportivos, enquanto enche ano a ano seus cofres e torra fortuna em publicidade, continua usando trabalho infantil na Indonésia. A Adidas, outra marca de reconhecimento internacional, que fechou fábricas na Europa, transferiu grande parte de sua produção para a Ásia, aproveitando a mão-de-obra de baixíssimo custo.

No estado de Tamil Nadu (sul da Índia) quase 400 mil meninos e meninas trabalham manualmente produzindo cigarros da marca “beddies” vendidos exclusivamente a elevado preço no mercado local. O salário desses meninos e meninas não ultrapassa 30 centavos de dólar por hora.

Os brinquedos distribuídos junto aos lanches das redes alimentícias Mc Donald´s, Bobs e Burger King em mais de 140 países são feitos por crianças com idade entre 11 e 14 anos em galpões sem nenhuma ventilação em Taiwan. Essas crianças chegam a trabalhar 10 ou 12 horas por dia em troca de ninharias ao final do mês e, grande parte delas apresentam queimaduras em mãos e braços, mediante o uso de componentes químicos. No entanto, em 2008, a rede Mc Donald´s anunciou um lucro recorde de US$ 4,3 bilhões (US$ 3,76 por ação) atendendo, em média, 58 milhões de consumidores por dia.

Ainda em termos de brinquedos infantis, talvez os casos mais infelizes aconteçam nas fábricas na China, onde trabalham 70 milhões de crianças e adolescentes. Esse país asiático é o maior exportador de brinquedos do mundo, usando aproximadamente 6 mil fábricas situadas na maior parte na chamada “terra dos brinquedos”, a província de Guangdong (sudeste do país).

Desse local procedem, por exemplo, o boneco “Buzz Lightyear” (do desenho “Toy Story”), um dos mais populares da Walt Disney. Há ainda uma ampla gama de produtos da empresa Mattel, a fabricante das bonecas “Barbie”. A mão-de-obra infantil usadas nessas fábricas é remunerada a 13 centavos de dólar por hora, numa jornada diária de 14 horas de trabalho. Por sua vez, em 2007, o lucro da Mattel atingiu US$ 379,6 milhões (US$ 1,05 por ação).

No Brasil, apesar da lei estabelecer 16 anos como a idade mínima para o ingresso no mercado de trabalho, mais de 5 milhões de crianças e jovens entre 7 e 15 anos trabalham nesse país, segundo pesquisa do IBGE – grande parte delas na agricultura.

De acordo com dados da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e do Programa Internacional de Eliminação do Trabalho Infantil (IPEC), base 2006, existem no mundo cerca de 350 milhões de crianças entre 5 e 16 anos envolvidas em alguma atividade econômica. Entre elas, cerca de 250 milhões são submetidas a condições consideradas de exploração, o que equivale a uma criança em cada seis no mundo. Destas, 170 milhões trabalham em condições perigosas e 76 milhões têm idade inferior a 10 anos. A maior parte deste “exército de mini-trabalhadores” (entre 5 e 14 anos de idade) vive na Ásia (127 milhões) e na África e Oriente Médio (61 milhões).

Na América Latina e Caribe são 17,4 milhões. Os países industrializados e o leste europeu não são exemplos de boa conduta nesse problema, uma vez que abrigam pelo menos 5 milhões de crianças trabalhando. Uma parte menor, mas dramaticamente consistente, desse contingente de trabalhadores é vitima de escravidão e destinada, por exemplo, à atividade de prostituição – número estimado em 8,4 milhões de crianças no mundo.

Em Bombaim, nos bordéis localizados na rua de Falkland, as meninas mais jovens e bonitas são exibidas em jaulas ao nível da rua para atrair clientes. Muitas mulheres são ali despejadas por traficantes, mas muitas são definitivamente “vendidas” pelos pais ou pelos maridos. Estima-se que atualmente 90 mil mulheres – metade das quais despachadas a partir do Nepal para a Índia – trabalham como prostitutas nessa cidade. A violência, as doenças, a subnutrição e a falta de cuidados médicos reduzem a esperança de vida para menos de 40 anos dessas pobres trabalhadoras.

Todos esses poucos (diante de uma infinidade) exemplos fazem parte de um modelo econômico insano que privilegia os ganhos financeiros em detrimento do sofrimento e da dor.

No mesmo instante em que crescem os lucros de empresas como a Nike, Adidas, Matell, das redes alimentícias Mc Donald´s e similares, dos fabricantes de tapetes do Nepal, da Índia e do Paquistão, cresce a dor e o sofrimento de milhões de indivíduos que “contribuem” com horas e horas de trabalho para os ganhos exorbitantes desses grandes conglomerados que superam em importância econômica várias nações. Não por acaso, nesse pormenor, 51% das cem maiores economias do mundo são corporações, e não países.

Enquanto esse modelo econômico perverso não for alterado, o alargamento dos bolsões de pobreza, miséria e indigência será constante. Enquanto o próprio conceito de economia não incluir em suas análises a valorização e a participação do indivíduo, nenhuma mudança será possível. Nesse sentido, enquanto a economia não for solidária e participativa, o modelo econômico atuante será o de sempre: excludente e individual, guiado unicamente pelo egoísmo e pela insensibilidade perante o sofrimento de muitos.

Por Economia Solidária entendemos um sistema econômico em que o indivíduo seja o ponto central na organização da atividade econômica e, acima de tudo, em que os direitos sociais sejam estabelecidos como princípios reguladores da economia. Economia Solidária pressupõe que a responsabilidade seja coletiva, e não individual; onde haja a união do capital ao trabalho, unindo o trabalho associativo (ajuda mútua) entre associações, cooperativas e agências de fomento.

No entanto, não nos iludamos: a mudança para uma economia solidária e participativa exigirá tempo Necessitará, nas palavras de Riane Eisler, autora de The Real Wealth of Nations, “modificações nos valores culturais e institucionais”. Mas, se um número suficiente de pessoas se mobilizar, ela terá lugar.

Dessa forma, a economia precisa urgentemente ser mudada em prol da melhora de vida dos mais necessitados. Uma economia mais justa e solidária é perfeitamente possível e, com ela, não haverá perdedores – todos ganharão. Diante disso, resta nos mobilizarmos e nos inserirmos na participação da economia solidária, afinal, entendemos que a economia (enquanto ciência) deve se pôr exclusivamente à serviço de diminuir as diferenças sociais que são cada vez mais gritantes.

O autor: Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor universitário. Mestre pela USP em Integração da América Latina e Especialista em Política Internacional Autor do livro “Conversando sobre Economia” ed. Alínea

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Comentários

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  • Humberto

    08/07/2009 – 11:52:40

    Olá Marcus Eu como Engenheiro não tinha idéia de como Economia é voltada para o lado social, imaginava que economia fosse exata, mas ao analizar e discutir seus artigos com alguns amigos percebi como estava redondamente enganado. Parabéns pelo seu artigo.

  • Renato Lima

    08/07/2009 – 00:01:38

    Olá! As suas preocupações são importantes, mas no fundo está uma visão de que economia é um jogo de soma zero, de que para uma empresa ter lucro é preciso que outros tenham “dor e sofrimento”. Além disso, há uma linha econômica que coloca claramente o homem no centro da economia, como é a maior obra do austríaco Ludwig Von Mises, Ação Humana (como é resumido neste artigo publicado no Instituto Millenium http://www.imil.org.br/artigos/a-praxeologia-de-mises/)

  • Rodolfo

    06/07/2009 – 16:43:41

    Tenho acompanhado aqui Marcus. Ve-se que seu lado social é muito forte, o que é interessante! Economia deveria ser somente isso, e nao calculo de TIR e familia. Segundo projeções profeticas e afirmativas espaciais, algo irá ocorrer em 2012, pode ser quando mudanças aconteçam no sistema.

  • Monica

    02/07/2009 – 08:17:00

    Parabéns pelo artigo, foi muito bem escrito e com informações valiosas. Concordo a economia precisa ser mudada e que ainda há muito para ser feito, mas frente a todos esses dados fica difícil acreditar que um dia tudo isso será mudado.

  • Ana Paula

    30/06/2009 – 08:52:32

    Sem sombra de dúvidas os obstáculos a serem superados são muitos, como observamos no artigo em questão…. porém eu ainda tenho a esperança que o mundo (Especialmente os detentores do capital) ira se conscientizar da barbárie que estamos fazendo com nossos irmãos….que a pressa seja para melhorar a qualidade de vida da sociedade e que o lucro seja para todos… Sonho com um Brasil (Quem sabe mundo) em que nossos políticos utilizem os tais “ATOS SECRETOS” não em beneficio próprio, mas sim para o bem estar de todos, como por exemplo, com nossos aposentados, após ter contribuído para a construção do nosso país, que eles possam viver com dignidade, ou com nossas crianças que não tem o que comer e muito menos um acesso ao ensino ou informações de qualidade. É de suma importância apresentar e divulgar através de artigos como esse os erros que se arrastam a tanto tempo, e acima de tudo criar soluções que respondam para a correção deste sistema que produz riqueza gerando pobreza…. Nós não podemos continuar fingindo dia após dia ou esperando que alguém faça algo…o poder de mudar a mundo está em nossas mãos….quem tem fome tem pressa…

Melhore sua saúde financeira e tenha uma vida melhor
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Fonte: www.oeconomista.com.br/trocando-a-insanidade-economica-pela-economia-solidaria

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