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Que sistema econômico queremos?

Autor: O Economista – 25 de agosto de 2009

“Há uma miséria maior do que morrer de fome no deserto: é não ter o que comer na terra de Canaã” José Américo de Almeida, A Bagaceira (1928)

O mundo que se desenrolou no século XX, indiscutivelmente, nos legou grande êxito tecnológico, mas também, ao mesmo tempo, nos deixou como herança para esse século XXI um total fracasso ético representado nas estatísticas perversas apontando que todas as noites 900 milhões de pessoas vão se deitar com fome e, algo como 5 milhões de crianças morrem todos os anos em decorrência da fome.

Se o Homem da modernidade deseja mesmo continuar evoluindo na Terra, esta evolução somente fará sentido, e terá plena e irrestrita validade, quando perversidades como a morte pela fome ou por doenças dela decorrentes, por exemplo, forem definitivamente banidas do planeta.

E é justamente a esse Homem que cabe a principal tarefa do momento: pôr fim a essa perversidade, tais quais os Homens de 150 anos passados fizeram, pondo fim à escravidão em diversas sociedades. Afinal, são os Homens (no sentido amplo do termo) que constroem, a cada dia, as sociedades que não param de apresentar mudanças.

Cumpre ressaltar que essas sociedades são “construídas” pelo livre pensar dos Homens, usando os pilares do sistema econômico, dos regimes políticos, da justiça, dos códigos do Direito, dos deveres e direitos dos cidadãos, dos princípios morais e das ações dos governantes.

Nesse sentido, em especial pelo viés da atividade econômica, que tanto pode responder rapidamente pela expansão (melhoria) ou pela regressão (piora) do modo de vida das pessoas, os modelos econômicos praticados atualmente, quer nos países desenvolvidos ou nos mercados emergentes, precisam se descolar, primeiramente, de um falso argumento que permeia a teoria econômica: não é aumentando a riqueza daqueles que já tem muito que se conseguirá diminuir a pobreza daqueles que nada tem. Em outras palavras, não se pode pensar nos caminhos que conduzem ao aumento da riqueza, ignorando, para isso, as possibilidades de redução da pobreza.

Igualmente é necessário romper, de forma definitiva, com o conceito dominante nas ciências econômicas de que riqueza e pobreza devam ser medidas pelo mesmo padrão: o produto interno bruto (PIB) e sua conseqüente renda per capita.

É fundamental que tenhamos a lucidez conceitual para verificarmos que crescimento econômico (elevação do PIB) não significa queda da pobreza, até mesmo porque o PIB como forma de medir riqueza trata-se de tremendo equívoco.

É certo que não se acaba com a pobreza crônica gerando empregos e fazendo o produto interno se expandir. Pobreza se acaba a partir da melhoria no sistema de saúde, tratando com qualidade à educação para oferecer educação com qualidade, melhorando as condições de higiene e alimentando melhor os mais pobres; portanto, proporcionando aos mais necessitados as básicas condições para o bem-estar.

O padrão de crescimento econômico das sociedades modernas não pode ser praticado, como temos presenciado, sob uma plataforma socialmente perversa, que desrespeita o indivíduo, não privilegia as condições dignas de trabalho, faz uso inadequado dos recursos naturais, polui o ar que respiramos e que se centra, apenas, sob a ótica mercantil. Nesse pormenor, as palavras do economista indiano Amartya Sen são exemplares: “Não se deve olhar o progresso de uma economia verificando o aumento da riqueza dos que já são ricos, mas na diminuição da pobreza daqueles que são muito pobres”.

A saída pode estar na prática da economia solidária Se realmente desejamos uma sociedade melhor, outro mundo precisa, urgentemente, ser “edificado” sob novos olhares. Especificamente sob o olhar de que a mudança é plausível e está ao nosso alcance. Reflexão coletiva é irmã siamesa da ação participativa. Assim, mostrando primeiramente as feridas, poderemos chegar, mediante ações, a sua cicatrização.

É necessário conhecer (pensar) para compreender e, é compreendendo que empreenderemos as ações. O pensamento precede a ação, assim como o desejo (o querer) incita o fazer, o agir. Agindo, “forçaremos” a mudança e, mudando, certamente, progrediremos.

Ensina-nos a Teologia que o plano de Deus ao Homem é a sua perfeição. No entanto, quis a Providência Divina que ao próprio Homem coubesse a escolha de qual caminho percorrer.

Assim, os caminhos percorridos pela livre vontade humana foram se alargando e as vielas e atalhos, por consequência, se multiplicaram. Desvios de conduta, obstáculos e buracos pelas diversas estradas não faltaram (e não faltam); eis porque, ainda hoje, por não estar trilhando o caminho correto, o Homem moderno parece conviver “pacificamente” com situações que, à luz do bom senso, aquele que esteja gozando plenamente de suas faculdades mentais jamais poderá admitir. Dentre elas, a existência de seres humanos vitimados pela ignominiosa situação que é a fome.

Para mudar essa situação, devemos agir. É nesse sentido que a economia solidária – uma nova maneira de “ver, pensar, sentir e fazer” economia vem ganhando destaque.

Conquanto, essa nova economia somente será solidária e ocupará espaço positivo à medida que um maior número de adeptos engrossarem as fileiras desse novo modelo econômico.

Desse modelo que respeita os padrões de produção, sem agredir os recursos naturais, respeitando à geração futura. De um modelo que respeita e prioriza o trabalho não remunerado da mulher “dona do lar”, vendo nisso também uma atividade econômica produtiva e, acima de tudo, desse modelo que afirma positivamente o trabalho das organizações não governamentais.

O modelo de economia solidária que queremos ver ganhar dimensão respeita a geração presente, priorizando, valorizando e enaltecendo o ser humano, em lugar de focar na acumulação de capital, típica da selvageria capitalista.

Por sinal, essa “selvageria capitalista”, ao longo dos últimos 200 anos, deu mostras de que não foram (e não são) as relações igualitárias que prevaleceram (e que prevalecem), mas sim a busca incansável pelo lucro, mesmo que a vida de milhões e milhões de pessoas sejam (e tenham sido) sacrificadas.

Por um novo sistema econômico Um novo sistema econômico, solidário e participativo, mais ético e menos mercantil, precisa, portanto, emergir para diminuir a abissal diferença entre o modo de viver dos mais ricos em relação aos mais pobres, até mesmo porque essa diferença já extrapolou todo e qualquer limite. Afinal, estamos num mundo em que vinte por cento da Humanidade não hesita em gastar três dólares por dia num simples cappuccino; enquanto, do outro lado, quase 40% da população mundial “tenta” viver com menos de dois dólares por dia.

Para manter uma vaca na Europa central são gastos quatro dólares por animal a cada dia. No entanto, por não receber nem dois dólares (menos da metade do que uma vaca “recebe” em forma de subsídio) por dia, 3 milhões de pessoas morrem por causa de malária todos os anos na África subsaariana.

A cada semana, a pobreza e suas “conseqüências” matam no continente africano o mesmo número de pessoas que foram dizimadas pelo tsunami que atingiu o sudeste asiático.

No entanto, a maior economia do mundo (EUA) gastou, apenas em 2007, US$ 547 bilhões em material bélico para manter suas tropas ocupando mais de 700 bases militares em mais de 110 países.

Segundo o Instituto Internacional de Estudos para a Paz de Estocolmo, foi gasto pelos países mais ricos, somente em 2007, a importância de US$ 1,339 trilhão em armamentos (incluindo todos os tipos de armas). Isso representou 2,5% do PIB mundial.

Para cada US$ 1 que a Organização das Nações Unidas (ONU) gasta em campanhas publicitárias para buscar a paz mundial, os três países ricos gastam, cada um, outros US$ 20 para promoverem guerras e destruições.

Até onde e quando esse modelo econômico perverso continuará dando as cartas?

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor universitário. Mestre pela USP em Integração da América Latina, especialista em Política Internacional (FESP), e curso de especialização pela Universidade de La Habana (Cuba)

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Fonte: www.oeconomista.com.br/sistema-economico

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